In this great galaxi Amatus takes no means rank
Friedenwald

1511: Nasce na então gloriosa vila de Castelo Branco aquele que viria a ser conhecido como o Príncipe da Medicina Portuguesa. De seu verdadeiro nome João Rodrigues, “a si mesmo viria a designar-se, longe da Pátria, João Rodrigues de Castelo Branco ou Joanne Roderico de Castelli albi Lusitano, conforme se lê na fachada do primeiro dos seus livros impressos”(1). É, sem dúvida, um dos personagens mais famosos da nossa história científica e, verdadeiramente, uma das grandes glórias da Beira Baixa e do nosso país. Pouco se sabe acerca da sua família, a não ser que tinha dois irmãos, Pedro Brandão e José Amato, este último veio a encontrá-lo, mais tarde, em Roma. Há ainda a destacar outro familiar de Amato Lusitano, Pyrrho Lusitano, seu primo, mais conhecido por Diogo Pires, com quem se encontrou muitas vezes na sua vida trabalhosa e de quem fala nas suas centúrias. Diogo Pires é conhecido como um dos mais ilustres poetas latinos do seu tempo e como um notável hellenista.
Não se sabe, igualmente, se foi casado nem se teve descendência.


1526: O jovem e promissor homem da ciência matricula-se na Universidade de Salamanca, na época a mais célebre universidade da península “ao passo que a Universidade Portuguesa ainda aguardava as reformas de D. João III, em atraso dos grandes acontecimentos nacionais”(2).
Na velha cidade do Tormes cruza-se com outros homens doutíssimos, entre eles avulta André Laguna, Luiz Nunes e João Aguillera.
De grande capacidade intelectual, e adverso à vida boémia e nocturna que caracterizava os estudantes peninsulares, Amato conclui os estudos em apenas quatro anos. “A idade com que Amato frequentou a Universidade, entre os 14 e os 18 anos, não é de molde a sugerir que um estudante em tão verdes anos acamaradasse com os veteranos da Escola nas estúrdias a que a mocidade é propensa. De modo que Amato foi realmente estudante na acepção directa e funcional do termo. A bagagem científica adquirida naqueles quatro anos é de tal modo vasta que não haveria tempo para o mais quer que fosse.”.(3)
“O curso médico abrangia o bacharelato em Artes, a frequência da cadeira de Filosofia natural e a de duas cadeiras de Medicina, de prima e de vespera.(...)Depois do bacharelato em Artes, frequentava o aluno médico por espaço de três anos as duas cadeiras de Medicina, seguindo também nos dois primeiros a de Filosofia Natural, onde eram explicados os textos de Aristóteles sobre a metafísica, a moral, a política e a canónica.”(4) Esta avultada soma de conhecimentos no campo das humanidades tornou-o um perito em latim e grego. Mas a sua erudição ia mais longe estendendo-se também ao hebraico, ao árabe e às línguas vivas - italiano, francês, alemão e inglês, “tudo isto com a aprendizagem dos textos de Galeno, Hipócrates, Dioscórides, Avicens, Averrois, etc”.(5)
Depois de concluir o curso, Amato abandona Salamanca e regressa à sua saudosa pátria, pronto a exercer a profissão que lhe iria granjear os maiores sucessos e a imposição do seu nome em vários tratados médicos.

1529: João Rodrigues de Castelo Branco chega a Portugal acompanhado do seu condiscípulo Luiz Nunes. Durante o escasso e passageiro tempo que passou em terras lusas, Amato praticou com entusiasmo a Medicina e dedicou-se afincadamente a uma área que considerava deveras interessante: a botânica. Este interesse pelas plantas já vem desde os seus tempos áureos passados na cidade banhada pelo Tormes e em Portugal esse gosto vai aumentar à medida que se desloca de cidade em cidade fazendo várias explorações botânicas, “de que nos dá copiosos ensinamentos. E não apenas acerca da flora metropolitana, mas das espécies que doutras regiões a que os portugueses aportaram nos vinham e para ele constituíam motivos de indagação, de interesse e de estudo. De caminho, dá-nos conta dos usos e costumes das nossas gentes, das produções do solo, do comércio e até de princípios de higiene alimentar”. (6) Castelo Branco, Évora, Estremoz, Guarda, Sabugal, Niza, Santarém foram algumas das cidades eleitas pelo médico judeu mas foi em Lisboa que se demorou mais tempo e a única onde afirma ter exercido clínica.
Também em Lisboa devia ter colhido grande número de informações sobre produtos que vinham do nosso opulento domínio ultramarino, conquanto algumas fossem completadas depois. Das ilhas de Cabo Verde e Madeira nos fala, assim como de produtos vindos da Índia e excepcionalmente do Brasil.
Amato procurava tirar todo o fruto que das viagens dos nossos navegantes se podia colher para as ciências histórico-naturais, examinando cá os produtos que nos traziam. Pretendia com isto aproveitar as propriedades terapêuticas das várias plantas.
Contudo, o esplendor de uma vida calma e pacífica havia de ter os dias contados, já que o caos e a desordem começariam a surgir num país dominado pela Inquisição. Amato, prevendo, atempadamente, o futuro que se fazia adivinhar, calculou que esta era a altura ideal para abandonar Portugal. E assim fez.

1534: Antuérpia vai ser a cidade que o vai acolher durante sete anos, lugar favorável e tranquilo para os judeus. Aqui cria “um prestígio que transpôs as fronteiras, sendo chamado a outros países ou atraindo clientes de polpa vindos de longe”(7). Frequentou a Casa de Portugal e a Feitoria de Flandres e “ao abrigo das perseguições, das denúncias e dos familiares do Santo Ofício, conviveu com homens de ciência, humanistas e filósofos, escritores e artistas; ali encontrou, refugiados como ele, cristãos-novos e «marranos», muitos dos quais médicos eminentes – a tal «gente de nação» que o Portugal desse tempo exportara fartamente para todos os cantos do Mundo.”(8) Certamente que a Inquisição não deve ter servido unicamente de pretexto para o abandono da pátria. “A curiosidade científica que não podia facilmente mitigar, propelia-o a conhecer outras terras aureoladas de prestígio científico que aqui faltava” (9). Afinal Amato desejava sempre aperfeiçoar-se e instruir-se mais.
Em Antuérpia completou e ampliou os seus conhecimentos médicos, tendo sido nesta cidade que publicou o primeiro livro impresso em latim, o célebre Index Dioscorides e iniciou os Comentários a Dioscórides, - obra sobre o mesmo assunto do Index Dioscorides mas com muito maior desenvolvimento - tendo sido, inclusive, um dos primeiros comentadores a fazê-lo no século XVI. O Index Dioscorides, publicado em 1536, constitui um valioso trabalho sobre simples e drogas, raríssimo em Portugal, existindo apenas um exemplar na Biblioteca de Évora. Nesta obra, Amato descreve as plantas confrontando as suas observações com as de Dioscórides. Nele refere-se a algumas plantas indígenas de Portugal e a produtos das ilhas de S. Tomé e Madeira. Como já foi dito, Amato sempre teve um particular interesse pela Botânica que será conjuntamente com a Anatomia os dois sectores predilectos do quinhentismo médico.
Durante a estadia na cidade flamenga conviveu com homens eminentes, médicos e humanistas, tais como, Luís Vives, Conrado Goclénio, Luís Nunes, Mestre Dionísio, Manuel Brudo, etc.


1541: Deixa Antuérpia e fixa-se em Ferrara, “seduzido pelas promessas de Hercules II d’Este, um dos filhos de Lucrécia Borgia. De facto, este permitiu aos judeus convertidos violentamente, que tinham fugido do forno de Portugal (...) que se fossem estabelecer nos seus estados e que seguissem as práticas da sua religião(...)”.(10) Naquele tempo Ferrara era um notabilíssimo centro de estudos médicos e uma das cidades mais modernas da Europa. Lugar onde vai permanecer durante seis anos. Em Ferrara é chamado a tratar papas, cardeais, príncipes, embaixadores generais com a mesma delicadeza e atenção que trata soldados, mercadores ou marinheiros. Sendo a Universidade de Ferrara uma das mais prestigiadas universidades de Itália, João Rodrigues de Castelo Branco orgulhou-se de exercer, conjuntamente com o seu amigo João Rodrigues Canani, a função de regente da cadeira de Anatomia naquela instituição académica. Foi desta colaboração que surgiu a primeira referência às válvulas das veias ázigos. Ali se consagrou à explicação dos textos de Galeno e Hipócrates. Nas horas de repouso escreve os Comentários a Dioscorides e redige as Centúrias Médicas, o seu grande tratado de clínica. Na realidade “a residência numa cidade como esta, onde as letras e as ciências eram apreciadas e cultivadas, devia agradar mais a um espírito elevado como o de Amato do que a demora numa terra, como Antuérpia, dada apenas ao tráfego comercial.”(11)
Trava conhecimento com ilustres médicos: Savonarola, Hugo de Sénis, Leoniceno, Bonaciolo, Manardo. De todos eles, António Musa Brasavola e João Baptista Canani, foram aqueles com quem estabeleceu relações mais amigáveis. Teve no primeiro o amigo predilecto, chegando mesmo a discutir assuntos médicos em comum, e será este a aconselhar Amato a dirigir-se para Ragusa. Quanto a Canani, sabe-se que com ele travou uma acérrima luta quanto à primazia da descoberta das válvulas das veias. Muitas acusações foram-lhe severamente dirigidas nomeadamente a de plágio por parte daqueles que atribuíram a Canani a descoberta das válvulas da veia ázigos. Mas se Canani teve o reconhecimento por parte de alguns, isso deve-se ao facto de Amato constá-lo nas Centúrias, referindo-o como seu colaborador. José Lopes Dias, afirma, numa das suas obras, que o médico português “tem a primazia do descobrimento das válvulas das veias, conforme demonstrámos noutro lugar contra a opinião dos historiadores italianos. O facto não oferece dúvidas e encontra-se corroborado na biografia norte-americana de Friedenwald”.(12)
Apesar da descoberta ser geralmente atribuída “a Fabricio d’Acquapendente, que em 1574, as demonstrou, notando que estavam sempre voltadas para o lado do coração, muito antes de Fabricio, em 1547, tinha-as observado Amato, de companhia com o seu amigo João Baptista Canani”.(13)
Ainda que possam existir certas confusões em torno desta questão, não há dúvida que Amato foi o primeiro a descrevê-las.

1547: Amato Lusitano muda-se para Ancona onde viviam milhares de portugueses cristãos-novos que, tendo sido expulsos de Portugal, encontraram nesta cidade da Península Itálica uma certa protecção por parte do Papa chegando mesmo a edificar ali uma sinagoga.
Durante este período deslocou-se a Veneza para tratar Diogo Hurtado de Mendoza, embaixador de Carlos V, que cordialmente lhe ofereceu hospedagem, estabelecendo-se entre ambos uma profícua amizade. “Os obsequios que recebeu de Diogo de Mendoza tinham como explicação os serviços que o nosso compatriota lhe prestara como médico. Ao chegar a Veneza, encontrara-o doente e rapidamente o curara. Por intermédio dele certamente, conheceu o seu correligionário Jacob Mantino, a quem chama doutíssimo médico e perito em muitas línguas”.(14) Através de Mantino, o nosso médico português é influenciado a efectuar uma tradução completa de Avicena. Tal não viria a acontecer devido ao falecimento de Jacob Mantino. Contudo, Amato ainda “reviu o manuscrito da 4ª Fen do 1º livro de Avicena, sobre o qual escreveu um comentário que estava a ponto de dar à luz. Não foi possível. Quando mais tarde os agentes de Paulo IV perseguiram novamente os judeus, e Amato se viu obrigado a fugir precipitadamente de Ancona, o comentário foi apreendido e não houve meio de reavê-lo mais”.(15)
Privou com médicos venezianos pois “havia em Veneza médicos ilustres, não só considerados na prática como competentes, mas eruditos e dados ao estudo das ciências e letras. Quatro são lembrados por Amato: Baptista Montano, Victor Trincavella, Bartholomeu Labioso e Orsato”.(16)
A 1 de Dezembro de 1549 termina a primeira das suas centúrias medicinais. Ancona contava no seu seio médicos ilustres, que Amato rememora. Estabeleceu relações proveitosas com Jacoba del Monte, irmã do Papa Júlio III “que o chamou como clínico e que certamente influiu mais tarde para a sua ida para Roma. Sobrinho desta senhora era o governador de Ancona, Vicente de Nobilibus, a quem Amato mereceu também aceitação e estima.”(17)

1550: Dirige-se a Roma para tratar o Papa Júlio III duma enfermidade das vias respiratórias e que nesse ano tinha sido eleito e sagrado. Prestou, inclusive, serviços clínicos a pessoas de família do Papa Júlio III, que igualmente tratou em Roma. “Junto do papa vinha encontrar o seu condiscípulo André Laguna e está-se a ver o contentamento com que se avistariam de novo, ao cabo de 20 anos, dois homens que haviam frequentado juntos as aulas de Salamanca, e que vinham encontrar-se , um cheio de honras e no auge da consideração, outro sem estas distinções mas com não menos renome”.(18)
Nesta cidade italiana permaneceu pouco tempo, digamos que o suficiente para conhecer figuras notáveis na corte de Júlio III, entre elas, consta a do embaixador Afonso de Lencastre com quem teve relações estreitas e elogia-lhe as suas grandes capacidades intelectuais. Mas o que mais o comoveu foi o reencontro com o seu irmão José Amato nesta cidade italiana.

1551: Dirige-se, então, a Florença “onde assistiu por pouco tempo, e deu à luz a primeira das suas centúrias medicinais, dedicada a Cosme de Medicis.” Nesta cidade permanece escasso tempo.

1552: Por esta altura já se encontra instalado novamente em Ancona, pois ali os judeus mesmo não tendo as regalias que desejavam orgulhavam-se de possuir uma sinagoga e gozar de alguma segurança. Aqui encontra-se com o poeta Diogo Pires e recebe a visita de seu sobrinho Brandão que estudou em Itália, sob a direcção de Amato. São vários os médicos que João Rodrigues de Castelo Branco conheceu em Ancona e a eles se refere nas diversas obras que escreveu. Relembra também a vasta clínica que possuía acolhendo as pessoas mais graves da cidade que recorriam ao seu préstimo como clínico. “Demorar-se-ia Amato por muito tempo em Ancona e nela acabaria tranquilamente os seus dias se não fosse a perseguição de que foi alvo por parte dos agentes de Paulo IV que recentemente subira ao solio pontifício e se mostrava rigorosíssimo na perseguição dos judeus”(19). “O novo Papa Paulo IV tinha ideias diferentes do seu antecessor e a tolerância existente, deixando viver em paz os milhares de portugueses ali residentes desvaneceu-se para dar lugar à mais negra intolerância.”(20)
É então, por esta altura, que se dá a perseguição de Amato. Este “para não ser vexado pelos emissários do papa fugiu para Pesaro e depois para Ragusa. Esses agentes apoderaram-se de tudo quanto possuía: oiro, prata, panos palacianos, vestidos preciosos e não poucas alfaias. A sua bem provida biblioteca – e rica devia ser, a ajuizar do grande número de autores que cita nas suas obras, - não escapou aos terríveis beleguins. Mais do que tudo, o médico português lamentava a perda de dois manuscritos seus: um o da 5ª Centúria das suas Curas Medicinais, que estava quase concluído, e outro os seus Comentários sobre a quarta Fen do livro I de Avicena, cujo texto havia sido fielmente vertido por Jacob Mantino, e revisto por Amato.”(21)

1555: Segue-se Pesaro, cidade dominada pelos duques de Urbino onde se refugia por algum tempo. Amato descreve-a como uma cidade nobre e magnífica.
Nos primeiros tempos da sua residência neste sítio, o ilustre médico apenas se preocupou com o roubo que lhe tinha sido feito e com a maneira de o reparar. Abrahão Catalão, seu amigo, convence-o a escrever aos comissários de Paulo IV pedindo-lhes a devolução das obras apreendias. Amato assim fez, mas até si só chegou a centúria 5ª das suas curas medicinais. “Nos poucos meses que residiu em Pesaro, não era possível que o médico português tivesse larga clínica e observasse numerosos casos que merecessem registo. De facto, apenas 31 das suas curas se referem a esta cidade. Também não são muitas as referências a pessoas notáveis que aí encontrasse.”(22) Aqui sentiria o desprezo que era depositado nos judeus por parte do duque reinante de seu nome Guido Ubaldo, soberano devasso quanto a costumes e cujos sentimentos não assentavam na tolerância. A partir do momento em que os judeus não lhe traziam quaisquer benefícios Guido Ubaldo não tomou outra medida senão a de exilá-los. “Amato não esperou pela expulsão para deixar Pesaro. Conquanto não possa fixar-se com exactidão a data da sua saída, deve ter-se efectuado entre o fim do mês de Maio de 1556, em que ainda estava nesta cidade, e 9 de Agosto do mesmo ano, em que já se fixara em Ragusa.”(23)

1556: O ilustre médico e humanista desloca-se para Ragusa, hoje Dubrovnik, na altura uma cidade pequena, antiga e muito semelhante a Veneza situada na província austríaca de Dalmacia, numa península banhada pelo mar Adriático.
Recorde-se que Amato Lusitano foi recomendado por Brasavola ao embaixador da República de Ragusa quando este procurava um médico idóneo e douto para residir naquela cidade. “Recebido com alta consideração pelo senado ragusino, ali exerceu com o maior prestígio a profissão e o seu nome é deveras apreciado na história médica jugoslava.”(24)
Contudo, “a vida do médico português apresenta agora menos interesse. Não tem aí o convívio dos sábios e letrados que tivera em Ferrara e em Roma”.(25) Mas o seu prestígio cresce de tal forma que a Ragusa chegavam pessoas atraídas pela sua fama e habilidades médicas. Amato era indiscutivelmente uma autoridade e enciclopédia médica do seu tempo deixando uma marca indelével na vida quotidiana desta cidade do mar Adrático. Aqui exerce a sua actividade clínica durante cerca de três anos bem como escreve a Sexta Centúria.
Por esta altura surge um pequeno incidente pois Amato reconhecia o valor e autoridade dos clássicos gregos, latinos e árabes mas sempre que verificava imperfeições não se coibia de afirmar divergências e de emendar Dioscórides, Plínio, Galeno e Avicena e também não receava discordâncias com os seus contemporâneos chegando a repreendê-los e a censurá-los. Foi o que aconteceu nos Comentários sobre Dioscorides com o título de In Dioscoridis Anazarbei libros quinque enarrationes eruditissimae. “Neste livro, Amato não se mostra tão afecto à autoridade que se não permita discordar do que a respeito de plantas medicinais haviam escrito os antigos e os modernos”.(26) Entre os escitores que se ocuparam da matéria médica está Mattioli, um dos mais ilustres comentadores de Dioscorides a quem Amato enumera os erros em que este caiu. Iniciam-se, assim, uma série de discussões, críticas e censuras entre os dois autores que culminam com a saída do médico lusitano de terras croatas pois “a atmosfera anti-semítica agora dimanada da autoridade papal não era tranquilizadora. E por isso mais uma vez tenta encontrar refúgio e acolhimento favorável noutros lugares”.(27)

1559: Dirige-se a Salónica em Maio deste ano. Esta cidade da Turquia era o porto de abrigo para dezenas de judeus errantes fugidos dos tentáculos ameaçadores e poderosos da Inquisição. “Para a situação que os judeus tinham na Turquia muito concorria o valimento que junto do sultão adquirira José Nasci, a quem Amato dedica a quinta centúria das suas Curas Medicinaes.”(28) Este mostrou ao sultão Solimão II as vantagens comerciais e financeiras que a Turquia podia obter ao acolher as famílias judaicas. A influência que o seu nome exercia na corte permitiu o estabelecimento de um grande número de famílias judaicas provenientes de Portugal e Espanha em território turco.
Os “anos passados em Salónica não são dos menos activos da vida de Amato(...) A sua actividade científica não esmorece, visto que de Salónica são datadas as três últimas centúrias, conquanto só a derradeira contenha observações colhidas nesta cidade.”(29) No entanto, faltava-lhe o convívio científico que tanto amava. Em Salónica escreve o seu famoso Juramento, incluído nas Centúrias.

1561: Publica a sua Sétima Centúria. “A obra clínica de Amato consta de sete centenas (ou centúrias) de histórias clínicas que ele denomina «curas»- são histórias clínicas, como hoje diríamos, encontra-se nelas a descrição de variadas doenças. Algumas ainda agora teriam valor, mas a maioria sofre naturalmente da influência da medicina árabe e galénica. Mas tal como sucedeu na Anatomia, o peso da tradição medieval era grande de mais para o poder deixar de lado”.(30) As Centúrias de Curas Medicinais ilustram a argúcia e o brilhantismo do seu pensamento e são, sem dúvida, um repositório monumental de sabedoria clínica da época e o mais autorizado documento médico do século XVI subscrito por um português.

1568: A peste instala-se em Salónica. “Amato, com o alto sentimento de dever lança-se com ardor e convicção no combate pela vida do seu semelhante e aí no seu posto perde a preciosa existência tão atribulada, mas tão gloriosa também”.(31) Resta-nos salientar que este médico competente e inteligente “foi uma alma inquietante, curiosa, ávida de saber e de aperfeiçoamento. Ainda que nele domine a filosofia da nova idade e seja essa a razão do seu merecimento não há dúvidas que o seu espírito foi sulcado pelas contradições e antinomias do tempo: de um lado chamavam-no as autoridades antigas, Galeno, Avicena e a tradição escolástica; do outro atraía-o a «nuova scienza», com a sua atitude objectiva, crítica, criadora e livre, voltada para a natureza e para o homem, despida das fantasmagóricas científicas da Escolástica de um lado, o exercício da razão no livre exame da realidade, no conhecimento assente na experiência, na «fé intacta das coisas», como ele próprio diz do outro, os preceitos do antigo sistema aristotélico-escolástico contidos nos textos”.(32)


Notas

1 DIAS, José Lopes, Amato Lusitano - Cidadão de Castelo Branco, Castelo Branco,1956, p.1.
2 Ibidem.
3 CORREIA, Maximino, Alguns passos da vida de Amato Lusitano, Academia das Ciências de Lisboa, 1968.
4 LEMOS, Maximiano, Amato Lusitano, a sua vida e a sua obra, Eduardo Tavares Martins editor, Porto, 1907, p. 19-20.
5 CORREIA, Maximino, Idem.
6 Idem.
7 Idem.
8 D’ESAGUY, Dr. Augusto, Oração e Juramento Médico de Moisés Maimonde e Amato Lusitano, Lisboa, 1955, p. 23.
9 CORREIA, Maximino, Idem.
10 LEMOS, Maximiano, Idem, p. 81.
11 Idem., p.81.
12 DIAS, José Lopes, Idem, p. 6.
13 LEMOS, Maximiano, Idem, p. 181.
14 Idem, p. 101.
15 Idem, p. 102.
16 Idem, p. 103.
17 Idem, p. 106.
18 Idem, p. 113.
19 Idem, p. 132.
20 CORREIA, Maximino, Idem.
21 LEMOS, Maximiano, Idem, p. 135.
22 Idem, p.140.
23 Idem, p. 142
24 DIAS, José Lopes, Idem, p. 5
25 LEMOS, Maximiano, Idem, p. 145.
26 Idem, p. 147.
27 CORREIA, Maximino, Idem.
28 LEMOS, Maximiano, Idem, p. 156.
29 Idem, p. 167.
30 GUERRA, Prof. Miller., Idem, p. 13.
31 CORREIA, Maximino, Idem.
32 GUERRA, Prof. Miller, Idem, p.17.

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